Rede de Pesquisa e Inovação em Leite

O texto da minha coluna na Revista Balde Branco do mês de março/2018

Paulo do Carmo Martins

Na edição do mês passado, neste espaço abordei um assunto que até então nunca tinha sido tratado nas revistas e sites brasileiros que discutem o setor de leite e derivados. O veganismo é um movimento que está em franco crescimento. Os veganos não tomam leite e nem comem carne, são contra qualquer exploração animal, significando boicote ao uso dos bichinhos na alimentação e vestuário. Além disso, os veganos estão influenciando o comportamento dos não veganos.

Neste início do ano decidi me isolar, voltar no tempo. Fui para Cuba, onde o acesso à internet é precaríssimo. Já tinha estado lá em 2005, numa missão do Governo Brasileiro, quando percorri o interior e conheci Havana, a capital. Mas, em viagens assim a gente não consegue sentir o que é o país. Agora, indo como turista, eu resolvi me hospedar com a minha família na casa de uma família cubana. Queria entender e sentir o dia-a-dia de um cubano. O café da manhã que nos serviram era muito superior ao que a família tomava. Mas, mesmo assim, inferior ao que temos aqui, nas pensões. Parecido com o que tínhamos nos anos setenta no Brasil. O mamão era daqueles sem cor e sem sabor. Mamão selvagem. O abacaxi, quase pedi açúcar para adoçá-lo. Abacaxi selvagem. O pão era muito bom. Feito em padarias estatais, com trigo totalmente importado, tecnologia moderna. Ah! Proteína animal? Ora... isso não se consome no café da manhã! E praticamente também não, nas demais refeições. Carne vermelha, frango e peixe...pratos raríssimos.

Ovo de galinha é tão importante, que é comum eles levarem uma cartela para casa como um troféu, desfilando pelas ruas. E esta é uma grande mudança que vi de 2005. Ovo em abundância. Quando o avião descia, pela janela do avião, vi muitas granjas no entorno de Havana, produzindo com soja e o milho vindos do Brasil. Novidade! Pois, eu pensei que seria muito interessante se os veganos vivessem numa sociedade à moda cubana de hoje ou do Brasil dos anos 70, ou seja, sem acesso à alimentos em abundância, uma conquista que a Embrapa e as universidades moldaram, ao tropicalizarem plantas e animais, por meio da pesquisa.

O fato é que a ciência brasileira está incorporando práticas de respeito aos animais. Cada vez mais nos valemos de simulações feitas em modelos computacionais, ao contrário do passado, quando tudo era testado diretamente nos animais. Além disso, nenhuma atividade de ensino ou pesquisa no Brasil é conduzida, sem que seja previamente aprovada pelas CEUAs das instituições, ou seja, as Comissões de Ética no Uso de Animais, onde tem acento sempre pessoas que os representam, como a Sociedade Protetora dos Animais. Por outro lado, a ciência brasileira tem oferecido soluções aos produtores, que não somente melhoram as condições de cria e recria dos animais. Este é o caso da chamada ILPF - Integração Lavoura, Pecuária e Floresta. Deixemos de lado aqui os ganhos financeiros com a produção integrada, que viabiliza receitas com vendas de grãos, de carne ou leite e de madeira, em momentos diferentes, fortalecendo o fluxo de caixa do empreendimento rural. Fiquemos apenas na questão do conforto que os animais passam a ter, ao serem criados soltos, comendo capim, que é a sua alimentação natural, debaixo de uma imensa sombra, e com água fresca.

As instituições brasileiras têm simulado situações em que variam temperatura e umidade, buscando entender como estas variáveis interferem no desempenho dos animais. E os resultados são claros. Quanto mais são confortáveis as condições em que os animais são manejados, melhores são os indicadores zootécnicos e econômicos. Por outro lado, com avanços ainda iniciais, possibilitados pela instalação de sensores nos ambientes e nos animais, é possível monitorar o comportamento animal, desde o seu nascimento até a sua fase reprodutiva. Estes sensores geram uma imensidão de dados e que, ao serem trabalhados, começam a nos dizer o que os animais sentem e querem. Isso mesmo! Os dados permitem que se estabeleça um diálogo com os animais, possibilitando prever se vai entrar em cio ou num processo doentio, evitável com procedimentos profiláticos.

Abolição da terceira ordenha, supressão da ocitocina, adoção de compost barn e sistemas integrados, redução da ação de patógenos e uso de medicamentos, transformação de dejetos em fertirrigação, tudo isso são práticas cada vez mais adotadas nas fazendas. A ciência tem aprendido a manejar os animais de acordo com os valores da natureza e isso tem levado a ganhos para produtores, indústria e consumidores. Mais que isso, foi pela ciência que conseguimos gerar excedente alimentar e combater a primeira necessidade humana, que é comer. Isso democratizou o acesso ao alimento. Toda prática que não pode ser universalizada é elitista, é excludente, não democrática. Respeito o veganismo. Mas, como dar acesso ao alimento a todos, se todos forem veganos? Conseguiríamos alimentar a todos? Seríamos mais felizes? Os cubanos, próximos do veganismo por falta de opção, certamente diriam que não!

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