Rede de Pesquisa e Inovação em Leite

Já houve alguma avaliação sobre o impacto da implantação de unidades demonstrativas para adoção de técnicas de produção de leite e transferência de tecnologias em uma comunidade, município ou região?

Exibições: 762

Respostas a este tópico

Frank,

Para iniciar a discussão neste fórum acho que primeiro seria interessante abordar, resumidamente, a diferença entre "unidade de observação" e "unidade demonstrativa". A primeira está na fase de experimentação. Verifica-se se a tecnologia ou novo processo adapta-se à região, ao modo de produção, à faixa econômica, educacional, cultural etc. dos produtores. Na "unidade demonstrativa" a tecnologia ou inovação já foi validada no local com os produtores da região. Ou seja, foi considerada pelos produtores como superior ao que existia. Este é o ponto em que o técnico pode recomendar - para aquelas condições estudadas.

 

Há algumas evidências que foram constatadas por pesquisas realizadas em outros países que dão sustentação ao uso ao método de "unidade demonstrativa". Algumas delas:

- amigos, parentes e vizinhos são as primeiras e a principais fontes de informação tecnológica do produtor rural (HERDT & CAPULE, 1983)

- o contato da pessoa com a inovação dá início ao processo de adoção. Segundo Rogers (1962), há cinco estágios para a adoção de tecnologias: o contato com a nova informação; o despertar do interesse; a avaliação ou julgamento; a  experimentação; a adoção. Veja que a unidade demonstrativa atua nas três primeiras etapas.

- quando houver uma instituição envolvida na demonstração, no caso cooperativa (HERDT & CAPULE, 1983), aumenta a chance de participação de pessoas no processo.

 

A eficiência de "unidades demonstrativas" aumenta quando (DEARING, 2009):

- se explica aos participantes os atributos da inovação

- há grupos de inovação

- ocorrem depoimentos dos líderes de opinião do local

- há uma orientação ou guia para a adaptação à inovação

- a demonstração é feita em grande escala

- existem pessoas otimistas com o processo de demonstração

- se apresentam os custos efetivos da inovação aos visitantes

 

Bibliografia:

DEARING, J. W. Applying diffusion of innovetion: theory to intervention development. Research on Social Work Practice, 2009. Originally published online in 5 June 2009. Disponível em: a href="http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2957672/>" target="_blank">http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2957672/>;. Acesso em: 6 dez. 2012.

HERDT R. W.; CAPULE C. Adoption, spread and production impact of modern rice varieties in Asia. Internacional Rice Research Institute, Los Banos, Laguna, Philippines, 1983. Disponível em: a href="http://books.irri.org/9711040832_content.pdf>" target="_blank">http://books.irri.org/9711040832_content.pdf>;. Acesso em: 6 dez. 2012.

ROGERS, E. M. The adoption process. In:_____ Diffusion of innovations. New York: The Macmillian Company, 1962, p. 76-120.

Prezado William,

Fiquei imensamente feliz com esse nivelamento inicial que você nos proporcionou!

Agradeço muito.

 

Meu questionamento é justamente sobre o sucesso alcançado com unidades demonstrativas que porventura tenham sido implantadas pela Embrapa, Emateres e Oepas no que se refere à transferência de tecnologias. Será que já houve estudos socioeconômicos sobre o impacto da adoção de técnicas pelas comunidades, municípios e regiões circunvizinhas?

 

Ao que parece, esta situação torna mais fácil a mensuração e análise do impacto da tecnologia sobre quebra de paradigmas e mudanças culturais, se comparada por exemplo ao dia de campo ou palestra técnica. Isso se tais situações puderem ser comparadas. Além das técnicas permanecerem mais próximas do público-alvo permitindo retornar ao local com mais frequência, na intenção de esclarecer dúvidas posteriores ou conferir detalhes operacionais.

 

Por favor, corrija-me se estiver enganado.

Frank.

Olá pessoal!

William, muito interessante seu comentário com embasamento na literatura. Só para vocês terem ideia e confirmar que "amigos, parentes e vizinhos são as primeiras e a principais fontes de informação tecnológica do produtor rural (HERDT & CAPULE, 1983)", o Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Leite de Goiás apresentado pela FAEG em 2009, mostra que 36,5% dos produtores que tem produção de até 50L de leite/dia tem como fonte de informação os vizinhos. Na média geral (considerando produtores que produzem até 1000L de leite/dia) este valor é de 23%. Desta maneira, nada mais interessante que possuir Unidades Demonstrativas para passar boas informações para os vizinhos. Por outro lado, como o Frank questionou, a avaliação do impacto tanto de UDs como de outras atividades de transferência de tecnologia (como palestras, treinamentos, dias-de-campo) não são fáceis de serem medidas mas existem maneiras de fazer isso. Ano passado, fomos convidadas para participar de um treinamento com o método SOMA, desenvolvido pelo Dr. Carlos Albuquerque que tem como objetivo avaliar a eficiência de um treinamento. Neste método é feito um pré-teste com as pessoas a serem treinadas e um pós-teste para saber o que elas aprenderam mas, na minha opinião, o mais importante é fazer esta avaliação após um determinado período (6 meses, 1 ano) para saber o que a pessoa treinada colocou em prática sobre o assunto aprendido. O método Soma está sendo utilizado pela equipe de TT da Embrapa Arroz e Feijão. Estou anexando um folder deste método para vocês conhecerem. Vocês tem contato com algum outro método de avaliação? Abraços.

Anexos

Pricila, eu achei muito interessante o Método Soma. Como você sabe, trabalho na organização e realização de cursos para produtores, técnicos e estudantes aqui na Embrapa Gado de Leite. Temos dificuldade avaliar o conhceimento adquirido pelo participante. Em parte pela falta de um método, como o que oferece o Soma e, por outro, pela dificuldade de implantar avaliações que atendam aos nossos diversos tipos de público. Há cursos que contam com pessoas de diferentes níveis de escolaridade dentro de sala de aula, o que torna complexa a aplicação de teste. Já tentamos segmentar cursos por escolarização dos participanes e não deu certo. De toda forma, acredito que o processo de ensino demanda uma avaliação. Apresentei o Método Soma a colegas daqui. Precisamos aprender e implantar algo deste tipo a adaptado à nossa realidade no Núcleo de Transferência, Treinamento e Capacitação em Pecuária de Leite - Nuttec. Obrigado pela contribuição.

Olá William!

Se você  precisar de mais informações sobre o método e quiser tirar alguma dúvida, posso enviar o contato do colega Carlos Santiago, que está trabalhando com o SOMA aqui na Embrapa Arroz e Feijão e também do Dr. Carlos Albuquerque. Conte comigo para o que precisar. Abraços.

Frank,

Não conheço avaliações da eficiência do "dia de campo" feitos pela Embrapa, Emater ou outra instituição. Fiz algumas buscas e nada encontrei.

Gostaria de trazer, a seguir, algumas contribuições a respeito deste método de construção/comunicação/transferência de informações a produtores rurais. Utilizarei como centro da apresentação os conceitos de Everett Rogers, que trabalhou muito este tema, apesar de ter sido muito criticado - muitas vezes por sua visão funcionalista e impositiva da extensão em relação ao produtor. De todo modo é uma excelente referência, muito utilizada até hoje em vários segmentos, como o mercadológico, por exemplo.

Para compreender o que pretendo discutir a seguir, preciso apresentar alguns conceitos. Há duas classificações de meios de comunicação (ROGERS, 1974). A primeira refere-se a dois tipos de canais de comunicação: a) de massa (rádio, TV, jornais, revistas, site de internet, etc.) e b) interpessoal (ou face a face). Os canais de massa possuem mais a função de mudança de conhecimentos e os interpessoais, a de formação e mudança de atitudes, ou persuasão (p. 246-250). Estas conclusões estão fundadas nos estudos de Copp, Sill, Beal e Rogers. No entanto, os meios de comunicação de massa são desiguais para um grande grupo de produtores pelo baixo acesso (pensando especialmente em internet), pelas limitações de ordem educacional e pelas informações pouco pertinentes oferecidas (ROGERS, 1974, p.253).

A segunda classificação separa a fonte cosmopolita (pessoa com múltiplos contatos e com experiência externa, por exemplo) da fonte local de informações (um produtor da comunidade, por exemplo). Pesquisas em diversos países (chamados à época de países desenvolvidos e subdesenvolvidos), como Estados Unidos, Canadá, Índia, Paquistão e Colômbia mostram que os “meios interpessoais de caráter cosmopolita eram extremamente importantes e, em alguns aspectos, pareciam desempenhar um papel semelhante ao dos meios de comunicação de massa nos países desenvolvidos” (ROGERS, 1974, p. 251).

Agora trazendo para o tema desta discussão - “dia de campo” - estes conceitos e evidências empíricas, sumarizados e interpretados pela visão de Rogers. O dia de campo é um método de canal interpessoal que conta com fonte cosmopolita e fonte local para fazer a interface com o produtor. Este extensionista (como fonte cosmopolita) e o produtor dono da propriedade (como fonte local) permitem a troca de mensagens de forma bilateral (na comunicação em massa a mensagem é unidirecional). O dia de campo tem, portanto, a capacidade de influenciar o usuário a ponto de mudar sua atitude, não apenas de informar uma nova tecnologia/produto/processo. Ou seja, é uma estratégia muito importante para fazer mudanças.

O autor não deixa de mencionar a importância da participação no processo de decisão sobre a inovação. Deixo isto para comentar depois, se houver interesse.

Observação: um produtor que frequentemente faz visitas a outras regiões e possui contatos com produtores de outros locais assume o caráter de cosmopolita.

 

Bibliografia:

ROGERS, E. M.; SHOEMAKER, F. F. La comunicación de innovaciones: un enfoque transcultural. México: Agencia para el Desarrollo Internacional., 1974, 385 p.

 

Que maravilha!

Parece que já estamos colhendo frutos desse diálogo!

Também achei muito interessante esse método SOMA!

Agradeço à Pricila e William pelas ótimas contribuições!

Vamos evoluindo!

Abs, Frank.

Prezados,

Muito proveitoso o questionamento do Frank e as intervenções do William e da Pricila. Gostaria de acrescentar algumas observações no sentido de continuarmos o diálogo.

Penso que devemos diferenciar o que é uma ferramenta/técnica de difusão e o processo de transferência de tecnologia e que as mesmas devem estar inseridas em um planejamento precedente. Ressalto isso porque, volta e meia nos deparamos com a utilização de ferramentas e técnicas isoladas (dias de campo, programas de rádio, etc.), como se as mesmas isoladamente fossem "resolver" as questões tecnológicas locais. A partir daí, as avaliações consideram a difusão alcançada pela ferramenta/técnica e não a real apropriação da tecnologia pelos produtores por meio da ferramenta/técnica. Ambas são importantes, mas distintas!

Ficou bem exposto pelo Willian que há diversos aspectos envolvidos na implantação e condução de uma unidade demonstrativa e que, no meu entender, algumas vezes é aconselhável que a mesma inicie como uma unidade de observação e "transforme-se" em demonstrativa ao longo do processo.

De maneira sucinta, o planejamento do processo de transferência de tecnologia deve iniciar identificando, com a participação dos atores envolvidos, os entraves tecnológicos da comunidade/região, passar pela decisão das ferramentas e técnicas a serem utilizadas e chegar na avaliação da efetividade do que foi proposto. Para realizar uma avaliação final é necessário que sejam estabelecidos os indicadores iniciais, ainda no processo de planejamento. Aí é que entra a distinção entre a avaliação do impacto da tecnologia e o impacto da ferramenta/técnica utilizada para esse fim. Esse aspecto estava presente na formação extensionista.

Frank, entendo que para avaliar uma unidade demonstrativa devemos buscar aspectos específicos de sua contribuição no processo de transferência de uma determinada tecnologia. Nesse sentido, seria interessante lançar um olhar sobre a  contribuição de uma unidade demonstrativa para o processo local. Certamente, uma unidade demonstrativa deve ser explorada como um espaço para a troca e construção do conhecimento, não apenas tecnológico. Seu potencial é de um espaço de interação da comunidade.

Abraço.

 
Marco Antonio Malburg disse:

Pricila,

É imprescindível o acompanhamento ou a avaliação após ter decorrido um certo prazo, conforme tu consideras. No momento do aprendizado muitos se empolgam mas na prática nem sempre acabam adotando. O PAS - Leite, por exemplo, que tem foco na qualidade, propõem o acompanhamento das análises do leite , antes da implantação, durante e principalmente por mais 10 meses subsequentes.



Pricila Vetrano Rizzo disse:

Olá pessoal!

William, muito interessante seu comentário com embasamento na literatura. Só para vocês terem ideia e confirmar que "amigos, parentes e vizinhos são as primeiras e a principais fontes de informação tecnológica do produtor rural (HERDT & CAPULE, 1983)", o Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Leite de Goiás apresentado pela FAEG em 2009, mostra que 36,5% dos produtores que tem produção de até 50L de leite/dia tem como fonte de informação os vizinhos. Na média geral (considerando produtores que produzem até 1000L de leite/dia) este valor é de 23%. Desta maneira, nada mais interessante que possuir Unidades Demonstrativas para passar boas informações para os vizinhos. Por outro lado, como o Frank questionou, a avaliação do impacto tanto de UDs como de outras atividades de transferência de tecnologia (como palestras, treinamentos, dias-de-campo) não são fáceis de serem medidas mas existem maneiras de fazer isso. Ano passado, fomos convidadas para participar de um treinamento com o método SOMA, desenvolvido pelo Dr. Carlos Albuquerque que tem como objetivo avaliar a eficiência de um treinamento. Neste método é feito um pré-teste com as pessoas a serem treinadas e um pós-teste para saber o que elas aprenderam mas, na minha opinião, o mais importante é fazer esta avaliação após um determinado período (6 meses, 1 ano) para saber o que a pessoa treinada colocou em prática sobre o assunto aprendido. O método Soma está sendo utilizado pela equipe de TT da Embrapa Arroz e Feijão. Estou anexando um folder deste método para vocês conhecerem. Vocês tem contato com algum outro método de avaliação? Abraços.

Carlos Eduardo,

Muito boas as suas considerações. Vejo a questão da mesma forma que você. Há dois pontos: avaliação da eficiência/eficácia do uso da técnica (unidade demonstrativa) e a avaliação do processo de transferência de tecnologia. No primeiro caso a preocupação é o entendimento do que foi apresentado aos participantes. No segundo caso o foco está na apropriação e uso do da técnica ou procedimento discutido no dia de campo.

O Método Soma, conforme apresentado pela Pricila Rizzo, avalia a técnica, o que os participantes entenderam do que foi dito durante o dia de campo. Essa avaliação pode ser feita ao final do evento e é muito importante. Já a avaliação do processo requer um período maior, seis meses a dois, três anos após o dia de campo. A Pricila reforça este ponto e chama de pós-teste. Para adotar um novo procedimento ou técnica o produtor faz inúmeras considerações.

Para o "sucesso" de um dia de campo é preciso observar os pontos mencionados muito bem pelo Carlos Eduardo, o que ele chama de "processo de transferência de tecnologia". A tecnologia ou processo a ser apresentado no dia de campo deve ser uma demanda dos produtores, algo que vai resolver um problema real na visão deles. Este é o ponto inicial e mais importante: visitar, conhecer, conversar, entender o dia-a-dia e construir a(s) demanda(s) junto aos produtores do local. Está feito o programa do dia de campo. O modo de apresentar, a forma de falar, etc. durante o evento ficam para o segundo momento. Usando esses pressupostos acredito que o "pós-teste" apontará um maior uso da técnica ou procedimento apresentado no dia de campo.

Pricila,

Aqui na Embrapa Gado de Leite (Juiz de Fora/MG) estamos avaliando cursos e dias de campo que realizamos no passado. O pesquisador Sérgio Rustichelli Teixeira tem dois projetos neste sentido. Ele faz contatos por telefone e visita pessoas que participaram de cursos e dias de campo no Campo Experimental José Henrique Bruschi (Coronel Pacheco/MG) para saber, dentre outras coisas: a) quais as tecnologias entre aquelas que viu ele utiliza e quais ele não utiliza. Ele quer saber o porquê. Seria algum problema da inadequação da tecnologia ou da compreensão da técnica?  b) se ele utiliza, foi preciso modificá-la? De que maneira? c) há outras sugestões ou demandas para a pesquisa a partir da realidade dos produtores e técnicos contatados em vários locais e situações?

Neste projeto o Sérgio tem viajado pelo Brasil para conversar com pessoas e conhecer em detalhes as questões levantadas por elas. O trabalho ainda está em andamento mas já tem resultados muito interessantes.

Tenho a premissa de que um produtor ou técnico vem para a fazer um treinamento profissional porque tem o interesse específico naquele tema. Aquele esforço, que geralmente envolve gastos financeiros, é feito para resolver um problema prático e imediato/iminente. Neste ponto podemos aproximar esta ação dos cursos e dias de campo na Embrapa ao levantamento de demandas de produtores em determinado local para montar um dia de campo (discutido no comentário anterior): as duas ações visam atender a uma demanda específica e real. O resultado em termos de adoção das duas ações é significativo e merece ser conhecido. É o que estamos fazendo, ainda que de forma modesta e inicial.

RSS

© 2019   Criado por Embrapa Gado de Leite.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço