Rede de Pesquisa e Inovação em Leite

O livro "Extensão ou comunicação?", do educador Paulo Freire, é um clássico para nós, que atuamos com extensão rural.

Ele inicia criticando o termo "extensão", que para ele indica o ato de estender o conhecimento de alguém que tudo sabe (o técnico) para alguém que apenas absorve passivamente o conhecimento (o produtor).

Fala da invasão cultural, quando o técnico busca simplesmente trocar o conhecimento do agricultor pelo seu, utilizando o argumento de que o seu é chancelado pela ciência.

Paulo Freire aborda o diálogo, a importante capacidade de (o técnico) dar ouvidos ao outro (produtor) para melhor ensinar e também para aprender. Trata do desafio que é a busca pelo saber: "Quanto mais é simples e dócil receptor dos conteúdos com os quais, em nome do saber, é "enchido" por seus professores, tanto menos pode pensar e apenas repete" (p. 36).

O autor também fala do papel político do extensionista enquanto profissional e indivíduo que precisa dar autonomia e promover o empoderamento de pessoas no campo.

Para deixar uma ideia de Paulo Freire para a discussão aqui: "A assistência técnica, que é indispensável, qualquer que seja o seu domínio, só é válida na medida em que o seu programa, nascendo da pesquisa do "tema gerador" do povo, vá mais além do puro treinamento técnico. [...] Não pode nunca reduzir-se ao adestramento, pois que a capacitação só se verifica no domínio do humano" (p. 61).

Abaixo link para o livro, disponível na Biblioteca Digital Paulo Freire. Segue também o livro em pdf.

Extensão ou comunicação? Paulo Freire

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Respostas a este tópico

Boa noite Dr Willian

Gostei muito do artigo parabéns por pela matéria.

Bom gostaria de acrescentar que a meu ver o assunto foi muito bem colocado em discussão pois concordo plenamente (extensão) passa uma ideia de se estender , mas estender o que, pois no caso desveria ser ensinamento  ou mesmo comunicação, mas se falarmos ensinamento melhor seria pois penso eu que a palavra ensinar é bastante abrangente : ou seja ensinar alguém que não sabe, ou mesmo reforçar o seu saber com mais alguma coisa, ou mesmo dele aprender algo muita das vezes se ensina mas também se aprende . Muito aprendemos em cursos em palestras, literatura etc... mas se  voltarmos ao primitivo  dele podemos também tirar proveito  e por aí vai. Quanto ao papel politico em meu simples saber penso que este é muito importante por vários motivos,  os quais acho com uma troca maior de entendimentos e de reciprocidade mais efetivamente seria a assimilação  das pessoas do campo para as quais as  vezes são mal orientadas por não assimilaram bem ou mesmo não acreditarem no que por vezes o técnico os passa de ensinamento.Sempre aprendemos mas mesmo sendo pessoas mais rústicas as vezes com pouco estudo, mas que carregam consigo uma bagagem enorme de conhecimento que passam por muitos despercebido ou sem o devido crédito de confiança por serem pessoas mais simples.

Att

Paschoal Jannuzzi

Sr. Paschoal, muito pertinente a sua posição. Há dois pontos centrais na sua fala que gostaria de comentar: comunicação e papel político. Sobre comunicação, que o senhor comenta, é exatamente a abordagem de Paulo Freire. O autor defende que o técnico e o produtor devem manter uma interação de diálogo e de aprendizagem mútua. Ele critica o termo extensão porque a palavra sugere a extensão do conhecimento do técnico (que detém o conhecimento importante) ao produtor (que apenas absorve). Ao contrário, ele defende o que o senhor mencionou. Ou seja, o produtor tem “uma bagagem enorme de conhecimento” (suas palavras) que o técnico deve conhecer e reconhecer. O trabalho do extensionista é aquele de ensinar e aprender diariamente. Paulo Freire diz: “Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos. E é como sujeito e somente enquanto sujeito, que o homem pode realmente conhecer” (p. 27). A ação de reflexão e de interesse em gerar conhecimento faz parte da dimensão humana. Se o técnico não reconhecer o produtor como agente de geração do conhecimento, ele está privando o outro de agir com sua plena capacidade humana. Afinal, as pessoas são seres humanos e não objetos - o autor faz essa ponderação.

Esse aspecto faz uma conexão com o segundo comentário, o papel político do extensionista. Paulo Freire defende que o ser humano precisa desenvolver sua curiosidade e sua capacidade de reflexão crítica a respeito da realidade vivida para, a partir desse ponto, ser capaz de modificar a realidade - não individual, mas coletiva. Aqui está o papel político do extensionista. A função desse profissional não é apenas educadora, de geração e construção de conhecimento. Ele tem o papel de agente de transformação social, alguém que proporciona aos agricultores a oportunidade de problematizar a situação de uma comunidade. Ele diz: “A educação que, para ser verdadeiramente humanista, tem que ser libertadora, não pode, portanto, caminhar neste sentido. Uma de suas preocupações básicas, pelo contrário, deve ser o aprofundamento da tomada de consciência que se opera nos homens enquanto agem, enquanto trabalham” (p. 76). Essa ação política não é a da pura ideologia, da reflexão vazia, mas aquele debate que trata das condições concretas do mundo real, de ações que modificam de fato uma conjuntura. É o que Paulo Freire chama de práxis. "Assim é que vemos o trabalho do agrônomo-educador. Trabalho no qual deve buscar em diálogo com os  camponeses, conhecer a realidade, para com eles, melhor transformá-la” (p. 85)”.



William Fernandes Bernardo disse:

Sr. Paschoal, muito pertinente a sua posição. Há dois pontos centrais na sua fala que gostaria de comentar: comunicação e papel político. Sobre comunicação, que o senhor comenta, é exatamente a abordagem de Paulo Freire. O autor defende que o técnico e o produtor devem manter uma interação de diálogo e de aprendizagem mútua. Ele critica o termo extensão porque a palavra sugere a extensão do conhecimento do técnico (que detém o conhecimento importante) ao produtor (que apenas absorve). Ao contrário, ele defende o que o senhor mencionou. Ou seja, o produtor tem “uma bagagem enorme de conhecimento” (suas palavras) que o técnico deve conhecer e reconhecer. O trabalho do extensionista é aquele de ensinar e aprender diariamente. Paulo Freire diz: “Conhecer é tarefa de sujeitos, não de objetos. E é como sujeito e somente enquanto sujeito, que o homem pode realmente conhecer” (p. 27). A ação de reflexão e de interesse em gerar conhecimento faz parte da dimensão humana. Se o técnico não reconhecer o produtor como agente de geração do conhecimento, ele está privando o outro de agir com sua plena capacidade humana. Afinal, as pessoas são seres humanos e não objetos - o autor faz essa ponderação.

Esse aspecto faz uma conexão com o segundo comentário, o papel político do extensionista. Paulo Freire defende que o ser humano precisa desenvolver sua curiosidade e sua capacidade de reflexão crítica a respeito da realidade vivida para, a partir desse ponto, ser capaz de modificar a realidade - não individual, mas coletiva. Aqui está o papel político do extensionista. A função desse profissional não é apenas educadora, de geração e construção de conhecimento. Ele tem o papel de agente de transformação social, alguém que proporciona aos agricultores a oportunidade de problematizar a situação de uma comunidade. Ele diz: “A educação que, para ser verdadeiramente humanista, tem que ser libertadora, não pode, portanto, caminhar neste sentido. Uma de suas preocupações básicas, pelo contrário, deve ser o aprofundamento da tomada de consciência que se opera nos homens enquanto agem, enquanto trabalham” (p. 76). Essa ação política não é a da pura ideologia, da reflexão vazia, mas aquele debate que trata das condições concretas do mundo real, de ações que modificam de fato uma conjuntura. É o que Paulo Freire chama de práxis. "Assim é que vemos o trabalho do agrônomo-educador. Trabalho no qual deve buscar em diálogo com os  camponeses, conhecer a realidade, para com eles, melhor transformá-la” (p. 85)”.

Boa noite Dr William

Muita vezes falo demais pois acho que falando muito se erra muito mas também se acerta mais. Caro Dr a meu ver nossos cursos  técnicos  sejam médios ou superiores da área  agrícola em geral pois é muito mais abrangente  a palavra agrícola, deveriam ter em seu currículo matéria voltada para comunicação,muitos de nossos técnicos, sabem muito mas as vezes pecam ao não saber passar para o agricultor, pecuarista etc... seus conhecimentos, e também deles assimilar coisas boas , nem sempre se tem apenas conhecimento através de cursos e literaturas mas também pela pratica o que esses nossos companheiros do campo tem , não adianta querer fazer com que mudem sua rotina sem  uma boa conversa e aí penso entra a comunicação que é e será a chave do sucesso do técnico em transmitir seus conhecimento e do produtor assimilar , acho que sempre que tentamos passar a alguém algo novo devemos também deixá-los que nos passem algo mesmo que seja velho mais aí esta a chave do sucesso dos mesmos.

Att

Paschoal Jannuzzi

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