Rede de Pesquisa e Inovação em Leite

Maiores entraves à produção de leite no Brasil demandam ações de pesquisa ou de transferência?

Há anos temos visto diversos estudos sobre demandas tecnológicas das principais regiões produtoras de leite do Brasil para aumento da atratividade e rentabilidade da atividade leiteira. Entretanto, ao analisar esses estudos prospectivos, nos deparamos com questões principais que não diferem muito ao longo dos anos e entre as diferentes regiões e sistemas. Ao mesmo tempo, nos deparamos com a grande evolução da área de pesquisa e desenvolvimento para a pecuária leiteira, com cada vez mais pesquisas desenvolvidas nas mais diversas áreas do conhecimento com resultados consistentes sendo publicados por instituições de pesquisa de reconhecida competência. Diante desse cenário temos o seguinte questionamento: os maiores entraves à produção de leite no Brasil são demandas de pesquisa (desenvolvimento tecnológico) ou de transferência de tecnologia (conhecimento já gerado mas que não chegou ao setor produtivo)?

 

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Como quem está ligado a Assistência Técnica acho que um dos maiores entraves é fazer com que o conhecimento saia das Universidades e Instituições de pesquisa, chegando diretamente ao produtor. Mas deve-se ressaltar que este conhecimento deve-se adaptar, ou melhor dizendo, ser acessível econômicamente ao pequeno produtor ou agricultor familiar. Na maioria das vezes o conhecimento até chega, mas diante da falta de recursos não tem condições de ser implantado nas pequenas propriedades!

Acredito que temos tecnologia suficiente para produzir mais leite. Pois temos produtores com médias próximas a 40 litros\vaca\dia, e também temos produtores com 5l\vaca\dia. logo concluo que poderíamos melhorar a produção\produtividade com as tecnologias já exixtentes.

Sergio Elmar Bender

Analista B

Embrapa Clima Temperado

De início quero agradecer os novos participantes desse fórum - Sérgio, Allan, Maria Cristina, Rosana e José Antônio.

 

Os comentários do Sérgio e do Alan reforçam a percepção, já demonstrada por outros participantes, de que temos tecnologias para melhorar e muito a produção de leite no Brasil, mas há problemas de ordem diversa, como citados ao longo dos posts, na transferência desses novos conhecimentos ao produtor.

 

A Rosana reforçou um entrave já citado que é da educação/preparação do produtor para receber essas novas tecnologias e que também acredito ser um dos principais entraves para essa adoção. Já a Maria Cristina e o Allan acrescentaram 2 novos e interessantes componentes: organização dos produtores e custo de adoção das tecnologias. O componente "organização", em minha percepção, muito correlacionado com uma gestão adequada, tem poder de impactar positivamente o sistema de produção pela melhoria nas condições de compra de insumos e venda da produção, mas também no acesso à tecnologias e conhecimentos. Já o custo de adoção, e o que acho mais importante, o custo / benefício dessa adoção, muitas vezes não é evidenciado devido a falta de dados consistentes dos indicadores economicos e zootécnicos do sistema, principalmente em pequenas propriedades. Assim, o que se tem é uma "percepção" de que a adoção é cara ou não vale a pena, sem informações confiáveis para contrabalancear esse custo com o resultado positivo que ela pode gerar.

 

A questão é que, sistemas com média de 40litros/vaca/dia, como citados pelo Sérgio, demandam tecnologias diferentes dos sistemas com 5litros de média, mas em todos eles, hoje temos tecnologias adequados para permitir a eficiência produtiva e economica desses sistemas. Mas é claro que existentes muitas possibilidades de avanço, e a pesquisa agropecuária está ai para isso.

 

Abraços e continuem contribuindo com a discussão.

Prezados,

 

Concordo com os posicionamentos, e todos eles nos levam à reflexão. É válido lembrar que existem tecnologias muito simples, como o kit de ordenha manual da EMbrapa, que o custo é baixo e os impactos, muito significativos (benefícios). Se considerarmos novos processos como tecnologias que o produtor pode adotar, e a adoção dessas e seus impactos como uma inovação no ambiente produtivo, é muito válido pensar que com pouco dinheiro, apenas com mudanças de comportamento (o que é, sem dúvida, um fator limitante), agrega-se qualidade ao leite produzido pelos pequenos produtores e agricultura familiar, que ainda são, em número, a maioria dos produtores do Brasil e que mais têm dificuldade de acesso às tecnologias (apesar de Pronaf e outros incentivos), sendo inclusive uma responsabilidade social nossa, que trabalhamos transferindo tecnologias para o setor produtivo.

 

Fernanda

A Fernanda citou o Kit de Ordenha Manual da Embrapa como uma tecnologia "que o custo é baixo e os impactos, muito significativos".

Realmente, o kit é um conjunto de utensílios (latão, papel toalha, balde com água clorada, dentre outros) que pode ser adquirido em qualquer parte do país a um baixo custo, e estudos mostram que a sua utilização adequada pode reduzir o índice de contagem bacteriana entre 40% a 85%.

 

É um exemplo que "com pouco dinheiro, apenas com mudanças de comportamento, agrega-se qualidade ao leite produzido". Para quem não teve a oportunidade de ver ainda, existem 2 vídeos na Rede sobre este kit. Estão nos links abaixo:

http://repileite.ning.com/video/dia-de-campo-na-tv-ordenha-1

http://repileite.ning.com/video/dia-de-campo-na-tv-ordenha

Até aqui percebo que muitas as ideias colocadas são todas pertinentes. Concordo com a Maria Cristina quando fala da organização dos produtores e acho que ela também pode ser relacionada à extensão rural. Os produtores de leite, talvez até pela sua característica, são muito desorganizados, apesar de haver exceções. Entendo que a que relação pesquisa-assistência técnica, também não é das melhores, mas acho que ambos os lados têm que se esforçar e correr atrás. A tecnologias simples e baratas estão aí, como o do kit da Embrapa. Hoje em dia, com a internet e os sites de procura, tudo fica bem mais simples de conhecer e de contatar os responsáveis. Lembro ainda do exemplo do CATI Leite em SP, consequência do projeto Balde Cheio, da Embrapa, que tem tido bons resultados. Com certeza precisamos avançar muito.

Considero que a distância entre a pesquisa e sua transferência para os produtores se deve ao distanciamento entre instituição de pesquisa ou universidades e as empresas de extensão, também temos que considerar que nestes institutos, a extensão e considerada em segundo plano dentro das atividades nele exercidas, bem como a pouca capitação e/ou recursos disponíveis direcionados a atividade de extensão.

Outro ponto importante, e as ferramentas utilizadas na atividade de extensão que devem considerar as caracteristicas regionais dos produtores e do sistema produtivo, o que muitas vezes são utilizados modelos universais para todo o Brasil, fato esse que inviabiliza muitas vezes o processo de transferencia de tecnologias aos produtores. 

Na verdade, em relação a situação do produtor, como o José Antônio colocou, creio que já foi muito pior do que é hoje, lembro-me q final dos anos 90 e início dos anos 2000 o preço do leite pago era baixíssimo, e nos últimos anos, em parte por causa de quebras na produção de leite de importantes países produtores, principalmente por razões climáticas, dentre outras razões, o preço/remuneração leite deu uma boa melhorada, ainda que últimos meses o preço não tenha sido tão bom. Inclusive isso se refletiu no aquecimento das vendas em leilões de animais especializados, no caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, onde tive a oportunidade de acompanhar isto de perto, inclusive no aumento do número de criadores associados (Holandes).

Penso que muito mais que um simples problema pontual  de instituições de pesquisa como a Embrapa, sem desmerecer de maneira alguma qualquer tipo de pesquisa na área do leite, este é um problema de diversas instituições, com relação à políticas públicas, com relação ao fomento em rede. Muitas vezes, quando as políticas pelo menos existem, estas vão do extremo, da assistência visando auxiliar o produtor de susbsitência, apenas para atender ao mínimo de normas, sem um programa com continuidade ao longos dos anos e de cunho técnico apartidário, como deveria ser, ao estilo dos planos diretores que tem essa visão mais ampla. Por outro lado, alguns problemas de cunho apenas assistencialista na parte de assistência, sem obrigações para o produtor, nem sempre são frutuosos, pois não haverá o mesmo compromisso com fundo perdido. Isto acontece muitas vezes até com nossas unidades de observação/demonstração em propriedades...

Por isso creio ser um problema bem complexo, e nossa Embrapa poderia ter um papel importante em articular esse trabalho tanto com o MAPA, como com os Estados, como já vem participando das tratativas em torno da IN51.

Outro ponto importante que não podemos esquecer é que não podemos deixar de esquecer o papel de integrar os laticínios neste trabalho, e ter a consciência que nem sempre a produção e qualidade vão beneficiar também ao produtor diretamente em valor financeiro. Por outro lado, a redução da sazonalidade, a entrada constante de dinheiro (capital de giro) simplesmente pela maior eficiência vão acabar beneficiando o produtor também. Aí sim, vejo que existe a oportunidade de fomentar um desenvolvimento de valor agregado ao produto, tanto para a pesquisa, que busca a solução, quanto para a transferência,que procura implaná-la, e a articulação com o setor produtivo será vital para esse sucesso, senão viramos uma ilha no oceando da baixa produtividade/qualidade.

Questão cultural pesa sim, é verdade, tenho parentes que são pequenos produtores de leite de diferentes perfis, mas aí que faz a diferença um acompanhamento contínuo de uma simples instrução. Isso que o produtor carece para quebrar paradigmas e adotar tecnologias, senão na primeira dificuldade técnica do dia a di, ele deixa de lado a técnica e volta para o empirismo que ele já conhece, por não sentir que possui um suporte legítimo diante do novo.

Acho que esta discussão vai dar muito pano pra manga! E aproveito para parabenizar as colocações enriquecedoras de vocês.

Boa tarde!

Excelente tópico, o que me leva a refletir: o Denis postou o assunto em 2011. De lá até hoje (2017), o que mudou? Se é que mudou? Talvez o problema continue do jeito que está, sem solução. Ou talvez tenham surgido iniciativas no sentido de resolver. A Capacitação Continuada de agentes de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), poderia ser uma solução - seja na modalidade presencial, semipresencial ou Ensino À Distância?

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