Rede de Pesquisa e Inovação em Leite

Maiores entraves à produção de leite no Brasil demandam ações de pesquisa ou de transferência?

Há anos temos visto diversos estudos sobre demandas tecnológicas das principais regiões produtoras de leite do Brasil para aumento da atratividade e rentabilidade da atividade leiteira. Entretanto, ao analisar esses estudos prospectivos, nos deparamos com questões principais que não diferem muito ao longo dos anos e entre as diferentes regiões e sistemas. Ao mesmo tempo, nos deparamos com a grande evolução da área de pesquisa e desenvolvimento para a pecuária leiteira, com cada vez mais pesquisas desenvolvidas nas mais diversas áreas do conhecimento com resultados consistentes sendo publicados por instituições de pesquisa de reconhecida competência. Diante desse cenário temos o seguinte questionamento: os maiores entraves à produção de leite no Brasil são demandas de pesquisa (desenvolvimento tecnológico) ou de transferência de tecnologia (conhecimento já gerado mas que não chegou ao setor produtivo)?

 

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O Brasil são muitos brasis, como se diz. Há regiões muito desenvolvidas e outras ainda muito carentes da presença do Estado. Isto se reflete em diferenças marcantes em infra-estrutura e, também, em assistência técnica a produtores. Os dados do IBGE de 2006 mostram que 78% dos produtores brasileiros nunca receberam assistência técnica, 13% recebem ocasionalmente e apenas 9% recebem assistência técnica regularmente em suas propriedades. Observando os produtores que não recebem asssistência técnica por região temos: 55% na região Sul, 69% no Nordeste, 70% no Centro-Oeste, 84% no Norte e 92% no Nordeste. Acredito temos problemas ainda básicos a resolver em termos tecnológicos. A tecnologia está a disposição mas os produtores não conseguem utilizá-la. As razões estão em diversos segmentos: no produtor, na assistência técnica e na pesquisa. Por exemplo, inseminação artificial (IA) de bovinos de leite. Lilian Iguma mostra que no Brasil, em 2006, apenas 5,35% das fêmeas de bovinos aptas à reprodução eram inseminadas, nos Estados Unidos eram 70%, na Holanda 92%, na Dinamarca 95% e em Israel 100%. A presença do Estado nas regiões e a aproximação entre o produtor, a extensão e a pesquisa são medidas para elevar o padrão tecnológico, social e econômico de todos os brasis.

Bom dia!

 

Concordo com o Willian que temos enormes diferenças entre as regiões, com diferentes modelos de sistema de produção, o que aumenta ainda mais os desafios da pesquisa e da transferência de tecnologia. Acredito que muitas tecnologias já geradas poderiam contribuir muito para o aumento da produtividade da pecuária leiteira.

 

O desenvolvimento de novas ferramentas, como uma melhoria no acesso a extensão rural pelos produtores podem melhorar esse cenário.

 

Das ferramentas utilizadas pela Embrapa quais vocês acreditam que tenha maior potencial de melhorar o acesso dos membros de toda a cadeia do leite às tecnologias da Embrapa e de outras instituições de pesquisa? E fora da Embrapa, no mercado, quais têm sido as maneiras mais eficientes de promover o melhor conhecimento das tecnologias geradas pela pesquisa?

Willian e Mariana obrigado pelos comentários e por fomentar essa discussão que julgo muito importante para a cadeia do leite no Brasil.

Me assusta o dado mostrado pelo Willian do número de produtores brasileiros que recebem assistência técnica. Isso mostra a enorme distância entre o desenvolvimento tecnológico gerado pelas instituições de pesquisa e o usuário final dessas tecnologias.

Concordo com a Mariana que as tecnologias já geradas tem potencial para aumentar em muito a produtividade da pecuária leiteira nacional. A grande questão é como fazer essas tecnologias chegarem, de fato, até o produtor e que ele tenham condições de implantá-las em sua propriedade.

A desestruturação dos serviços de extensão rural dos estados, ocorrida ao longo da última década contribuiu para esse cenário, fazendo com que as tecnologias geradas pelos centros de pesquisa não tivessem um órgão/instituição que as levassem até o sistema produtivo.

Assim, creio que o sucesso das tecnologias da Embrapa, principalmente na cadeia da pecuária leiteira, caracterizada por milhões de pequenos e médios produtores espalhados por todo o Brasil, depende de um sistema de extensão rural forte, atuando de forma articulada/integrada à Embrapa.

Abraços e vamos continuar a discussão.

Ambos, mas acho que mais de TT e ainda acrescento outros. A partir da estabilidade da moeda em 1995 os indicadores de desempenho melhoraram, isto é, fizeram o produtor acreditar que $ não se deterioraria durante o mês. Quero dizer que política ajuda muito. Outra coisa que ajuda é cultura, costume. Mas estas coisas estão ai para compreendermos e temos menos capacidade de ação do que a pesquisa e TT podem fazer. Mas para a TT ser mais efetiva precisamos atuar cada vez mais na área que vc coordena e conseguirmos de pesquisadores que trabalhem mais em como sua peça se encaixa no quebra-cabeças e não como o quebra-cabeças se encaixa a sua peça.

Caro Sérgio Rustichelli,

de fato existem diversos fatores que interferem na adoção de tecnologias pelos produtores e considero a questão cultural, citada por você, muito importante. Por ser uma atividade, em muitos casos familiar, com práticas produtivas que passam de geração para geração, a adoção de novas tecnologias, do conhecimento novo, acaba prejudicada por certa resistência cultural desses produtores. 

Além disso, o fato da cadeia produtiva do leite ser bastante desarticulada em seus diversos elos, a atividade como um todo acaba perdendo em competitividade. Ou seja, de nada adiantar termos indústrias fortes se o produtor se encontra desmotivado com a atividade e não é valorizado pelos seus ganhos em produtividade e qualidade do produto. Mas ai entramos em uma outra discussão...

Abraços e continuem colaborando com essa discussão.

Boa noite!

Acredito que existam importantes entraves tanto na área de pesquisa quanto na área de transferência e não consigo concluir se um é maior do que o outro. No primeiro caso, suspeito que exista um gap entre a pesquisa atualmente realizada e a pesquisa efetivamente necessária para o fortalecimento da cadeia de leite brasileira. Na segunda situação, enxergo uma necessidade de se delinear melhores estratégias de transferência de tecnologia de acordo com cada público-alvo. Enfim, retorno a pergunta a vocês: Será que os estudos prospectivos mencionados pelo Denis continuam os mesmos ao longo dos anos pelo fato de existir uma distância entre o que é prospectado e o que é pesquisado ou seria pelo fato de que o que está sendo pesquisado não estar sendo transferido? Ou seria simplesmente a soma dessas duas situações?

Por fim, gostaria de acrescentar mais um importante entrave que creio não estar ligado nem a pesquisa nem a transferência de tecnologia: o pouco conhecimento em gestão. Menciono isso, pois toda atividade empresarial, seja ela urbana ou rural, precisa ter uma boa estrutura em 3 pilares: liderança, conhecimento técnico e gestão. Creio que a pesquisa e a transferência de tecnologia estejam mais focadas na parte técnica, sendo que os grandes gargalos podem estar na liderança e na gestão. Mas deixo isso para um próximo tópico de discussão...

Bom dia Pessoal!

Bom, pelo que pude ver a discussão aqui começou no topo do problema:

"...os maiores entraves à produção de leite no Brasil são demandas de pesquisa (desenvolvimento tecnológico) ou de transferência de tecnologia (conhecimento já gerado mas que não chegou ao setor produtivo)?

Denis Teixeira da Rocha

E de uma forma natural está chegando a base do problema, que na minha humilde opinião acredito estar na EDUCAÇÂO. "Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar". É preciso maiores esforços para ensinar os produtores à entender as maravilhas descobertas pela pesquisa, como disse o Sr. Sérgio Rustichelli é preciso mudanças culturais, essas só ocorrerão através do conhecimento.

Não acredito que o maior problema esteja relacionado à pesquisa, mas sim à transferência de informação.

Olá a todos!

 

Pessoal, esse tópico é fantástico, e como comentado por todos acima, não são poucos os desafios que nós, profissionais do agronegócio especialmente ligados ao leite, enfrentamos. Acredito que todos os itens citados acima têm influência, uns em maior, outros em menor escala, de acordo com cada perfil de produtor, região trabalhada, etc.

 

Mais uma vez, compartilho a realidade da região norte: produtores com média de 48,26 anos, com aproximadamente 4 anos de escolaridade (em média), em sua maioria (dados do "Diagóstico do agronegócio do leite e seus derivados", Sebrae, 2002). Já podemos inferir que um dos desafios é a educação, e sabemos da relação existente entre adoção de novas tecnologias e nível de escolaridade, esta sendo positiva. Por outro lado (ou como consequência), a adoção de práticas de gestão, por esses produtores, é muito baixa. Perguntas básicas para a sobrevivência de qualquer negócio como "qual o custo do seu leite" não conseguem ser respondidas. Além disso, os técnicos que estão no dia-a-dia com esses produtores nem sempre estão bem capacitados, muitas vezes por dificuldade de acesso à informação (o que, em Rondônia, ainda é uma realidade). Assim, temos o mesmo cenário descrito acima: desafios culturais, educacionais, de transferência de tecnologia.

 

Em relação à pesquisa, concordo que existe sim um gap, como bem colocado pela Myriam, entre as demandas do setor produtivo e os resultados de pesquisa. E aí mais uma vez concordo com a Myriam, pois a gestão é fundamental para alinhar o que se gera de pesquisa, a aplicação destas (e como transferí-la para diferentes públicos), a medição dos resultados (a prática foi eficiente? As metas foram atingidas? Manteremos essa estratégia? Mudaremos a estratégia?) e a retroalimentação para a pesquisa. Esse círculo eu não vejo funcionar muito bem.

 

Enfim, existem oportunidades de melhoria em ambas as etapas do processo: na pesquisa e na transferência, e como muito bem colocado pela Myriam, a gestão é uma ferramenta que pode minimizar esse espaço... nosso trabalho não é pequeno, mas é desafiador... e é por isso que considero fundamental a troca de experiências, as reflexões, os comentários de cada um de nós aqui!

Bom dia a todos.

Muito bom ver a dicussão animada e com comentários tão bem embasados de todos os participantes. Nesse sentido agradeço a Myriam, o Philipe e a Fernanda por se inserirem nessa discussão e pelas valiosas contribuições.

Nesses últimos tópicos, 3 aspectos importantes foram destacados: a educação do produtor de leite, a gestão dessas propriedades e a eficiência dos estudos prospectivos de demanda junto ao setor produtivo.

O nível educacional dos adotantes da tecnologia afeta e muito a eficiência nessa adoção e exige um esforço adicional da assistência técnica/extensão rural para adequar esse novo conhecimento gerado pela pesquisa para entendimento e aplicação pelo produtor no seu dia a dia. Nesse sentido, como bem destacado pela Myriam e Fernanda, a falta de gestão nas fazendas é um fator que restringe essa adoção, pois sem gestão, o produtor tem mais dificuldade de enxergar os benefícios reais da adoção de novas tecnologias em seu sistema produtivo e o quanto essas tecnologias podem contribuir para o aumento da renda de sua atividade.

Quanto a prospecção de demandas e a avaliação da eficiência da transferência das tecnologias geradas pela pesquisa, a Embrapa já vem mostrando sua preocupação em trabalhar melhor essas 2 faces. Atualmente, tem-se buscado reforçar os estudos prospectivos, para alinhar melhor suas pesquisas às necessidades reais dos sistemas de produção, ao mesmo tempo em que avalia os resultados da aplicação das tecnologias nesses sistemas, verificando a real adoção,  as dificuldades verificadas e seus impactos gerados. Nessa área o pesquisador Sergio Rustichelli, participante dessa discussão, se destaca com projetos nesses 2 temas dentro da Embrapa Gado de Leite.

Nesse último ponto, sobre avaliação da transferência, a Fernanda criou um novo fórum sobre "Ferramentas de Transferência de Tecnologia - como avaliar sua eficácia?" para debatermos esse assunto tão importante.

A cada dia a discussão está mais interessante. Vamos continuar contribuindo pessoal.

Abraços.

Denis
Acho que os pontos tocados por todos são uma realidade. A educação está diretamente relacionada com a extensão rural e a assistência técnica. Hoje as pesquisas não conseguem chegar ao produtor porque tanto a extensão rural (que está esquecida) e a assistência técnica não funcionam efetivamente, como mostram o dados citados pelo William, nem nas principais regiões produtoras. A maior prova disso é a necessidade de que o MAPA está tendo em adiar a implantação da IN 51, pela falta de adesão dos produtores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste pelo fato de cerca de 70% dos produtores estarem em desacordo com as normas. Isso, entre outras coisas, tem a ver com o fato da pesquisa não chegar ao campo, pois há tecnologias simples que qualquer produtor poderia utilizar para melhorar a qualidade do leite que não é de domínio dos produtores.

Prezado Denis:

Temos visto, ao longo de décadas, o crescimento da produção leiteira. Porém temos assistido de "camarote", o produtor sendo expoliado pelas indústrias. Estão querendo matar a "galinha dos ovos de ouro". Enquanto os donos de indústrias trocam seus autom.oveis seminovos por outros mais novos e mais possantes, o produtor de leite, principalmente o agricultor familiar, está trocando o seu fusquinha, anos 70 quiçá 80, por uma carroça.

Com esta política da cadeia leiteira, existente no Brasil, não será a Extensão Rural que fará o milagre dos pães.

Observei os comentários e entendo que eles desenham um setor muito assimétrico, de ponta a ponta da cadeia produtiva, ou seja um descompasso de interesses e de políticas focadas no desenvolvimento da atividade leiteira no País, marcada pela descontinuidade de políticas públicas e efetiva atuação dos agentes. Portanto, o hiato entre a Pesquisa e a adoção é nítido, ainda que haja um trabalho a ser reconhecido realizado por quem faz extensão, seja pública, privada, formal etc. Diante da constatação de que existe um estoque de tecnologias e que muitas não são adotadas, a questão passa a ser outra: Por quê não adotar, se mesmo diante da constatação da ampliação do Poder de compra do Produtor, crédito e financiamento à disposição (sobrando...) e da melhoria geral em termos de acesso à informações? Qual outra variável deve ser analisada neste estudo? Rosana entende que é a educação, eu acredito que seja fundamental também a organização, ela facilita o acesso a mercado, preços, venda, e principalmente sensibilibilza para a adoção. Como se pode ver Denis, a "tarefa de casa" é ... auspiciosa!!!! Carpe diem!

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