Rede de Pesquisa e Inovação em Leite

Srs.

Tem muita gente que acha que extensão rural é igual a assistência técnica. Precisamos já do funcionamento da agencia nacional de assistência técnica e brigar pela isonomia salarial. Nós não somos piores que um fiscal agropecuário do MAPA e nem que um pesquisador da EMBRAPA. Temos nossa importância, principalmente na agricultura familiar.

Atenciosamente.

Edivaldo Seixas Nascimento

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A Extensão Rural deveria fazer a comunicação entre a pesquisa e o setor produtivo, nos dois sentidos, tanto de identificar demandas quanto de levar soluções para serem testadas ou usadas finalmente pelos produtores ou outros atores do setor. Para tal é preciso que haja extensionistas que se aprofundem na articulação entre os segmentos quanto. A partir da prática no campo, se aprofundem também no estudo científico da extensão e possam inclusive para deixar cada vez mais claro a diferença entre extensão e assistência técnica.

Nos dias de hoje o serviço oficial de pesquisa mudou muito o seu perfil. Agora ela está mais preocupada com as demandas dos agricultores e algumas unidades participam bem este momento. Antes a demanda era dos próprios pesquisadores. Hoje não basta só levar soluções, tem que se levar conhecimento, informação de como se chegou aquela solução e todas as implicações a partir dela.

Prezados,

Penso que devemos aprender a compartilhar mais responsabilidade e conhecimento. A dinâmica atual é muito mais de compartilhar do que de levar, de construir mais do que de transferir. Além disso, precisamos superar fragilidades de nossas política públicas, seja quanto ao alcance de quem é atendido ou a consistência, permanência das ações ao longo do tempo. As políticas tem que ir além de mandatos. Tema interessante, daria para ampliarmos a discussão para as propostas hoje vigentes.

Gostaria de discutir um pouco a diferença entre assistência técnica e extensão rural. Muitas vezes trabalhamos em um departamento, em uma empresa ou em uma área e não paramos para refletir o que aquilo significa. Acho importante o trabalhador parar um momento para pensar no processo em que está envolvido para entender qual é o seu papel. Marx falava da alienação, que trataremos depois.

 

Começando por “assistência técnica”, o dicionário Aurélio informa que o verbo assistir, que dá origem ao termo, é “estar presente, comparecer [...], auxiliar, ajudar, socorrer, favorecer [...], acompanhar, principalmente em ato público, na qualidade de ajudante, assistente ou assessor [...], acompanhar (enfermo, moribundo, parturiente, etc.) para prestar-lhe conforto moral ou material” (FERREIRA, 1975, p. 149). O mesmo dicionário dá à palavra assistência o seguinte significado: “intervenção de pessoas legalmente autorizadas em certos atos daqueles que têm relativa capacidade civil, para lhes suprir a deficiência”. Daí pode-se inferir que o profissional que presta assistência técnica é alguém que estará presente e próximo de uma pessoa portadora de certa necessidade.

 

Este profissional tem “relativa capacidade”, ou seja, em determinados aspectos ele possui capacidade superior a quem recebe; no caso o conhecimento técnico. E basta deter o conhecimento técnico? Não, é preciso ser “legalmente autorizada em certos atos”. Que atos seriam esses? Ora, ter formação profissional (passar em uma seleção de ingresso em um curso – de nível médio ou superior), ter sido selecionado em para um trabalho, etc. Neste momento o profissional passa a ter legitimidade para prestar assistência técnica. Ele adquire a posição ou cargo por sua competência e sua ocupação passa a ser aceita porque demonstrou capacidade.

 

Vejam que o termo assistência técnica tem uma conotação de ajuda, de socorro a alguém com necessidade premente e urgente. A assessoria será estritamente técnica. O profissional estará presente e comparecerá ao local onde está o demandante para levar-lhe a técnica. Que técnica será esta? (Não vamos abordar aqui o poder, os interesses e beneficiários da técnica.) É aquela que aprendeu em sua formação acadêmica. Neste caso, aumento de produção e produtividade, redução de custos de produção, maximização no uso de insumos, redução de impactos ambientais, monitoramento das condições químicas e biológicas do ambiente, etc. Esta é a competência que é exigida de quem presta assistência técnica no campo. Dele são exigidos conhecimentos teóricos e sempre atualizados sobre a técnica.

 

Vamos agora discutir o termo "extensão rural". Para Fonseca (1985) a extensão rural, em termos históricos, nasceu aliada ao capitalismo recente devido à necessidade de absorção de máquinas e outros insumos agrícolas e gerar riqueza. Para a autora o trabalho do extensionista está intimamente ligado a este processo (e a projetos de governo) de absorção dos produtos da indústria.

 

Na perspectiva de Paulo Freire (1983), a análise semântica do termo extensão leva à interpretação de que a ação do extensionista é “a de quem estende algo até alguém” (p. 20). Ele critica este termo, uma vez que carrega também os significados de transmissão, entrega, superioridade, messianismo, mecanicismo e invasão cultural. Ele defende que o extensionista não deve lançar mão de persuasão, propaganda, manipulação ou outros artifícios que coloquem o agricultor em posição de inferioridade ou de mero receptor de informações.

 

O produtor rural, segundo Paulo Freire, deve ser um sujeito ativo no processo de comunicação e de geração de conhecimento. O autor sugere que o “novo” extensionista atue junto com o agricultor para criar e manter um ambiente de diálogo e crítica das técnicas, práticas, condições de vida e do ambiente sócio-político no qual está imerso o produtor rural e sua família. Este “novo” extensionista de Paulo Freire tem a função educadora e mediadora do processo de ação política e de emancipação da pessoa humana.

 

Esta é uma das perspectivas da diferença entre "assistência técnica" e "extensão rural".

 

Complemento da discussão:

Voltamos agora à alienação, conceito que Marx muito utilizou. Ele diz que um dos aspectos do trabalho como ato de alienação da atividade humana é “a relação do trabalhador com o produto do trabalho como objeto alheio tendo poder sobre ele. Esta relação é a relação do trabalhador com a sua própria atividade como uma atividade alheia não pertencente a ele, a atividade como sofrimento, a força como impotência, a procriação como emasculação, a energia mental e física própria do trabalhador, a sua vida pessoal – pois o que é vida senão atividade – como uma atividade voltada contra ele mesmo, independente dele, não pertencente a ele” (MARX, p. 154). Na visão do autor, o baixo controle sobre seu trabalho torna o próprio trabalhador como objeto do capital (privado). O trabalho (por conta do capitalismo) é alienado mais que o próprio trabalhador.

 

Com referência ao que foi discutido, vamos refletir: qual atuação profissional parece mais alienante, a “assistência técnica” ou a “nova” extensão rural de Paulo Freire?

 

Bibliografia:

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário de língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975, 1.517p.

FONSECA, M. T. L. da. A extensão rural no Brasil, um projeto educativo para o capital. São Paulo: Loyola, 1985, 192p.

FREIRE, P. Extensão ou comunicação? 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, 93p.

MARX, K. Trabalho alienado e superação positiva da auto-alienação hunana. In: FERNADES, F. K. Marx & F. Engels. São Paulo: Ática, 1989, p. 146-181.

Gostei de sua participação. Quanto ao ponto de reflexão, creio que uma coisa é alienante quando você não tem

capacidade de decidir. Então a assistência técnica é mais alienante.

William Fernandes Bernardo disse:

Gostaria de discutir um pouco a diferença entre assistência técnica e extensão rural. Muitas vezes trabalhamos em um departamento, em uma empresa ou em uma área e não paramos para refletir o que aquilo significa. Acho importante o trabalhador parar um momento para pensar no processo em que está envolvido para entender qual é o seu papel. Marx falava da alienação, que trataremos depois.

 

Começando por “assistência técnica”, o dicionário Aurélio informa que o verbo assistir, que dá origem ao termo, é “estar presente, comparecer [...], auxiliar, ajudar, socorrer, favorecer [...], acompanhar, principalmente em ato público, na qualidade de ajudante, assistente ou assessor [...], acompanhar (enfermo, moribundo, parturiente, etc.) para prestar-lhe conforto moral ou material” (FERREIRA, 1975, p. 149). O mesmo dicionário dá à palavra assistência o seguinte significado: “intervenção de pessoas legalmente autorizadas em certos atos daqueles que têm relativa capacidade civil, para lhes suprir a deficiência”. Daí pode-se inferir que o profissional que presta assistência técnica é alguém que estará presente e próximo de uma pessoa portadora de certa necessidade.

 

Este profissional tem “relativa capacidade”, ou seja, em determinados aspectos ele possui capacidade superior a quem recebe; no caso o conhecimento técnico. E basta deter o conhecimento técnico? Não, é preciso ser “legalmente autorizada em certos atos”. Que atos seriam esses? Ora, ter formação profissional (passar em uma seleção de ingresso em um curso – de nível médio ou superior), ter sido selecionado em para um trabalho, etc. Neste momento o profissional passa a ter legitimidade para prestar assistência técnica. Ele adquire a posição ou cargo por sua competência e sua ocupação passa a ser aceita porque demonstrou capacidade.

 

Vejam que o termo assistência técnica tem uma conotação de ajuda, de socorro a alguém com necessidade premente e urgente. A assessoria será estritamente técnica. O profissional estará presente e comparecerá ao local onde está o demandante para levar-lhe a técnica. Que técnica será esta? (Não vamos abordar aqui o poder, os interesses e beneficiários da técnica.) É aquela que aprendeu em sua formação acadêmica. Neste caso, aumento de produção e produtividade, redução de custos de produção, maximização no uso de insumos, redução de impactos ambientais, monitoramento das condições químicas e biológicas do ambiente, etc. Esta é a competência que é exigida de quem presta assistência técnica no campo. Dele são exigidos conhecimentos teóricos e sempre atualizados sobre a técnica.

 

Vamos agora discutir o termo "extensão rural". Para Fonseca (1985) a extensão rural, em termos históricos, nasceu aliada ao capitalismo recente devido à necessidade de absorção de máquinas e outros insumos agrícolas e gerar riqueza. Para a autora o trabalho do extensionista está intimamente ligado a este processo (e a projetos de governo) de absorção dos produtos da indústria.

 

Na perspectiva de Paulo Freire (1983), a análise semântica do termo extensão leva à interpretação de que a ação do extensionista é “a de quem estende algo até alguém” (p. 20). Ele critica este termo, uma vez que carrega também os significados de transmissão, entrega, superioridade, messianismo, mecanicismo e invasão cultural. Ele defende que o extensionista não deve lançar mão de persuasão, propaganda, manipulação ou outros artifícios que coloquem o agricultor em posição de inferioridade ou de mero receptor de informações.

 

O produtor rural, segundo Paulo Freire, deve ser um sujeito ativo no processo de comunicação e de geração de conhecimento. O autor sugere que o “novo” extensionista atue junto com o agricultor para criar e manter um ambiente de diálogo e crítica das técnicas, práticas, condições de vida e do ambiente sócio-político no qual está imerso o produtor rural e sua família. Este “novo” extensionista de Paulo Freire tem a função educadora e mediadora do processo de ação política e de emancipação da pessoa humana.

 

Esta é uma das perspectivas da diferença entre "assistência técnica" e "extensão rural".

 

Complemento da discussão:

Voltamos agora à alienação, conceito que Marx muito utilizou. Ele diz que um dos aspectos do trabalho como ato de alienação da atividade humana é “a relação do trabalhador com o produto do trabalho como objeto alheio tendo poder sobre ele. Esta relação é a relação do trabalhador com a sua própria atividade como uma atividade alheia não pertencente a ele, a atividade como sofrimento, a força como impotência, a procriação como emasculação, a energia mental e física própria do trabalhador, a sua vida pessoal – pois o que é vida senão atividade – como uma atividade voltada contra ele mesmo, independente dele, não pertencente a ele” (MARX, p. 154). Na visão do autor, o baixo controle sobre seu trabalho torna o próprio trabalhador como objeto do capital (privado). O trabalho (por conta do capitalismo) é alienado mais que o próprio trabalhador.

 

Com referência ao que foi discutido, vamos refletir: qual atuação profissional parece mais alienante, a “assistência técnica” ou a “nova” extensão rural de Paulo Freire?

 

Bibliografia:

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário de língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975, 1.517p.

FONSECA, M. T. L. da. A extensão rural no Brasil, um projeto educativo para o capital. São Paulo: Loyola, 1985, 192p.

FREIRE, P. Extensão ou comunicação? 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, 93p.

MARX, K. Trabalho alienado e superação positiva da auto-alienação hunana. In: FERNADES, F. K. Marx & F. Engels. São Paulo: Ática, 1989, p. 146-181.

Edivaldo,

Eu acho que o conceito de alienação, de Marx, nos ajuda bem a perceber a diferença entre "assistência técnica" e "extensão rural". O primeiro tem o foco no produto agropecuário e o segundo no ser humano. O que o técnico aprende na escola/universidade é a técnica. O profissional é formado para dominá-la e para, quando diante do produtor, ter segurança de demonstrar pleno domínio da ciência. Seu ofício é saber aplicar a técnica para obter resultados mensuráveis e positivos decorrentes do bom uso da tecnologia.

Vejo que há uma falha nos cursos de ciências biológicas e exatas (que inclui os cursos técnicos em agropecuária, agronomia, zootecnia, veterinária, etc.) com relação ao seu preparo acadêmico. Há um choque quando o profissional finaliza esses cursos e assume um trabalho que demanda relacionamento humano. Ele(a) sabe a técnica mas não sabe lidar com situações que exigem bom relacionamento entre pessoas e noções de política. Não falo de política partidária, mas de saber se posicionar e lidar com conflitos e disputas por poder. Defendo que falta uma formação na área de ciências humanas naqueles cursos.

Extensão rural demanda uma vontade de educar e educar-se, conforme defende Paulo Freire. Precisa saber ceder, esperar o tempo do outro, conhecer as limitações do produtor e as suas próprias limitações. É preciso ter humildade. O extensionista trabalha com a técnica, sua área formação e competência. Este conhecimento é fundamental, até para legitimar sua ação. A diferença é que ele sabe não apenas utilizar e compartilhar a técnica, mas reconstruir, criar outra e até negá-la, se preciso. O olhar do extensionista está na família do produtor, na localidade, no futuro da comunidade, no desenvolvimento das habilidades, no crescimento da pessoa humana. Para o extensionista a técnica é um meio, não um fim.

Luís meu email é:clesioematne@gmail.com

Desde já te agradeço.



Sergio Rustichelli Teixeira disse:

A Extensão Rural deveria fazer a comunicação entre a pesquisa e o setor produtivo, nos dois sentidos, tanto de identificar demandas quanto de levar soluções para serem testadas ou usadas finalmente pelos produtores ou outros atores do setor. Para tal é preciso que haja extensionistas que se aprofundem na articulação entre os segmentos quanto. A partir da prática no campo, se aprofundem também no estudo científico da extensão e possam inclusive para deixar cada vez mais claro a diferença entre extensão e assistência técnica.



William Fernandes Bernardo disse:

Edivaldo,

Eu acho que o conceito de alienação, de Marx, nos ajuda bem a perceber a diferença entre "assistência técnica" e "extensão rural". O primeiro tem o foco no produto agropecuário e o segundo no ser humano. O que o técnico aprende na escola/universidade é a técnica. O profissional é formado para dominá-la e para, quando diante do produtor, ter segurança de demonstrar pleno domínio da ciência. Seu ofício é saber aplicar a técnica para obter resultados mensuráveis e positivos decorrentes do bom uso da tecnologia.

Vejo que há uma falha nos cursos de ciências biológicas e exatas (que inclui os cursos técnicos em agropecuária, agronomia, zootecnia, veterinária, etc.) com relação ao seu preparo acadêmico. Há um choque quando o profissional finaliza esses cursos e assume um trabalho que demanda relacionamento humano. Ele(a) sabe a técnica mas não sabe lidar com situações que exigem bom relacionamento entre pessoas e noções de política. Não falo de política partidária, mas de saber se posicionar e lidar com conflitos e disputas por poder. Defendo que falta uma formação na área de ciências humanas naqueles cursos.

Extensão rural demanda uma vontade de educar e educar-se, conforme defende Paulo Freire. Precisa saber ceder, esperar o tempo do outro, conhecer as limitações do produtor e as suas próprias limitações. É preciso ter humildade. O extensionista trabalha com a técnica, sua área formação e competência. Este conhecimento é fundamental, até para legitimar sua ação. A diferença é que ele sabe não apenas utilizar e compartilhar a técnica, mas reconstruir, criar outra e até negá-la, se preciso. O olhar do extensionista está na família do produtor, na localidade, no futuro da comunidade, no desenvolvimento das habilidades, no crescimento da pessoa humana. Para o extensionista a técnica é um meio, não um fim.

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